Adeus Infância Feliz
Fomos de pescar sob as sombras das árvores, passear de barco e comer ingá da beira do rio, brincamos com muitos besourinhos verdes e nos grandes e escuros, amarramos caixa de fósforos para eles puxarem, fomos de assar batata doce nas brasas do fogão à lenha, vimos o Louva-Deus pedir perdão, fomos de represar as enxurradas das chuvas nas margens das ruas e nelas flutuar barquinhos de papel, das chuvas de pedra chupamos gelo com açúcar, fizemos cata-vento de madeira, fomos de ler gibi, fomos encantados pela cartilha escolar e admirados com a primeira caneta esferográfica que surgiu.
Até os treze anos ou mais, descontraídos andamos descalços e a noite brincamos e conversamos ao redor de fogueira e fomos de tantos outros divertimentos, mas, apagaram-se da memória.
Alguém já escreveu que nesta nossa época
as crianças de dez anos já são velhas. Nisso entende-se
que o “progresso” roubou todos os espaços das crianças
e a tecnologia moderna infiltrou-se em suas mentes castrando-lhes suas criatividades.
Crianças de antigamente dificilmente adoeciam, pois, suas liberdades
e contatos diretos com a natureza perfaziam um viver harmônico livre de
responsabilidades e preocupações. Nestes tempos, as crianças
são mais restritas em seus lares ou nas precoces escolinhas onde seus
movimentos são vigiados. Afastando-as de um viver natural, real, a televisão
e o computador provocam o vício de um viver virtual. Não é
surpresa se alguma criança nunca viu uma bananeira, ovinhos ou filhotes
de pássaros em seus ninhos e uma cigarra cantando. Existem pais que estão
contentes com seus filhinhos tão “inteligentes” já
abarrotados com a fúria de tantas informações difundidas
que eles abrigam, tirando-lhes suas inocências antes do tempo e elas foram
o que de melhor nós tivemos.
Num tresloucado viver, parecendo ter como combustível a inconsciente
busca da infância perdida, vemo-la substituídas por ídolos
da hipnose coletiva do viver virtual onde multidões atraídas por
eles se pisoteiam e se matam. Quando não, alguns dão entrevistas
tão imbecis sobre si e sobre esses ídolos, parecendo mesmo que
não tiveram uma infância natural. Tem discernimento humano, compostura
e algum “jogo de cintura” que só se aprende numa boa infância.
Paciência! Restringiram os tempos das crianças, seus espaços
e liberdades. O que sobrou para elas tem veneno adulto. E os adultos, crianças
grandes que são, sempre brincando de seriedade, responsabilidade, política,
poder, domínio, religião, filosofia, futebol e tudo o mais, não
passam de perdidos no paraíso sem pirulito. Isto explica nossa saga neste
mundo em que infância já era.