A PERDA DE PESO EM IDOSOS
NÃO TEM A VER SÓ COM A BALANÇA
A perda de peso em idosos não tem a ver só com a balança
Dra. Beverly Tchang
Notificação
17 de junho de 2025
Embora a perda ponderal seja geralmente o objetivo do controle de peso, em idosos esse processo deve ir além da perda de peso e se concentrar em desfechos como melhora da função e de comorbidades e redução de danos.
O controle de peso em idosos exige maior atenção e análise de nuances clínicas do que em populações mais jovens, devido ao maior risco de danos. O envelhecimento é comumente acompanhado por um aumento na complexidade clínica — idosos são mais propensos a viver com múltiplas doenças crônicas e a tomar vários medicamentos, o que acrescenta importantes níveis de consideração ao fazer intervenções para perda de peso.
Mais de 50% dos idosos têm três ou mais doenças crônicas. Esses quadros sobrepostos exigem cuidados coordenados e multidisciplinares. Nesse contexto, os médicos devem considerar como a perda de peso significativa pode melhorar as complicações relacionadas à obesidade, além de ponderar o potencial de consequências não intencionais que podem surgir de mudanças rápidas ou não monitoradas no estado de saúde.
A polifarmácia é uma preocupação comum no cuidado geriátrico e aumenta a complexidade do controle de peso. Entre adultos com 65 anos ou mais com seguro Medicare, a mediana de medicamentos prescritos foi de quatro. Pacientes idosos podem receber prescrição de medicamentos associados ao potencial ganho de peso, como anti-histamínicos de primeira geração ou betabloqueadores.
A polifarmácia não só aumenta o risco de interações medicamentosas adversas como também exige monitoramento rigoroso durante a perda ponderal, especialmente quando a dose dos medicamentos depende do peso. Um relato de caso sobre tireotoxicose após perda de 30% do peso com tirzepatida destacou a importância do ajuste de medicamentos como a levotiroxina com base no peso.
Como a obesidade é a causa ou contribui para várias outras doenças cardiometabólicas, o tratamento da obesidade demonstrou melhorar várias consequências relacionadas ao peso. O estudo Look AHEAD com adultos com diabetes tipo 2 relatou uma perda média de peso de 8,6% e melhoras associadas na pressão arterial, nos perfis lipídicos e no estado glicêmico. Os avanços na farmacoterapia antiobesidade, que agora possibilitam limiares de perda de peso de 15% a 20%, foram associados à redução do uso de terapias anti-hipertensivas e hipolipemiantes.
Em uma análise secundária de estudos com semaglutida 2,4 mg, 34% versus 15% dos participantes apresentaram suspensão ou redução da dose de seus medicamentos anti-hipertensivos, mantendo pressões arteriais normais. Embora esses dados observacionais sejam insuficientes para estabelecer recomendações, eles exigem atenção: à medida que a perda de peso é alcançada, os regimes de medicação devem ser revisados regularmente para possível retirada da prescrição, a fim de reduzir o risco de tratamento excessivo, efeitos adversos e complicações relacionadas à polifarmácia.
Além da doença cardiometabólica, a sarcopenia — declínio da massa e da função muscular relacionado à idade — é outra consideração crucial. Os médicos devem se concentrar em recomendações nutricionais e de atividade física baseadas em evidências que comprovadamente preservam a massa magra e a função. Uma maior ingestão de proteínas tem demonstrado consistentemente preservar a massa magra ou melhorar a composição corporal em situações de perda de peso. Dietas ricas em proteínas (ou seja, com teor proteico superior a 0,8 g/kg/dia) são comumente recomendadas em conjunto com um programa de treinamento de força progressivo.
Em um estudo de perda de peso que analisou adultos com obesidade, os participantes foram randomizados para receber um suplemento rico em proteína versus um suplemento isocalórico e participaram de um programa de exercícios de resistência três vezes por semana durante 13 semanas. Embora a perda de peso e de massa gorda tenha sido semelhante nos dois grupos, aqueles que receberam o suplemento com alto teor de proteína (1,1 g/kg/dia de proteína) ganharam 0,4 kg ± 1,2 kg de massa muscular apendicular, enquanto aqueles que receberam o suplemento isocalórico (0,85 g/kg/dia de proteína) perderam 0,5 ± 2,1 kg (p = 0,03).
Pesquisas semelhantes com foco no treinamento de resistência replicaram esses benefícios em diferentes estudos. Uma revisão sistemática e metanálise de seis ensaios clínicos randomizados que incluíram idosos com obesidade comparou a perda de peso por meio da restrição calórica isoladamente com a perda de peso por meio da restrição calórica + treinamento de resistência; o treinamento de resistência reduziu 93,5% da perda de massa magra associada à restrição calórica. Além disso, a relação força/massa magra melhorou quando o treinamento de resistência acompanhou a restrição calórica em comparação à restrição calórica isoladamente (20,9% vs. −7,5%).
No entanto, a preservação muscular é apenas parte da história. A saúde óssea é uma preocupação igualmente importante durante a perda de peso em idosos. A redução rápida ou sustentada de peso pode ter efeitos não intencionais na densidade óssea, o que por sua vez pode aumentar o risco de fraturas. Poucos estudos examinaram a incidência da taxa de fraturas após perda de peso sustentada e a longo prazo.
No estudo Look AHEAD, mencionado anteriormente, feito com adultos com diabetes tipo 2, nenhuma diferença significativa na incidência de fraturas foi observada em uma mediana de 9,6 anos (373 participantes randomizados para intervenção intensiva no estilo de vida vs. 358 randomizados para conscientização padrão sobre diabetes), mas foi observado um composto da primeira ocorrência de fratura de quadril, braço ou ombro 39% maior no grupo de intervenção.
Estudos de desfechos de longo prazo examinando o risco de fraturas com o controle clínico do peso não foram conduzidos, mas o aumento do risco de fraturas observado em indivíduos que se submeteram à cirurgia bariátrica serviu de base para recomendações de exames de osteoporose mais precoces e frequentes e maior suplementação de vitamina D para otimizar a saúde óssea.
De modo geral, o controle da obesidade em idosos requer uma abordagem cuidadosa e personalizada, atenta ao tratamento de comorbidades e que priorize a mitigação de riscos.
Os efeitos da obesidade em todos os aspectos da qualidade de vida de uma pessoa estão sendo cada vez mais reconhecidos, e os pacientes devem ser informados sobre como a perda de peso pode interagir com doenças coexistentes, regimes medicamentosos e saúde musculoesquelética.
Os médicos que tratam a obesidade em idosos devem estar preparados para cuidar de pacientes nessas interseções ou coordenar o atendimento com nutricionistas, fisiologistas do exercício, endocrinologistas e profissionais de atenção primária.
Este conteúdo foi traduzido do Medscape