O que estamos fazendo com nossos filhos?
Se você cria seu filho para você, certamente terá que lidar com um número incalculável de situações em que ele será chacota do O que estamos fazendo comundo.
Se você cria seu filho para o mundo ( um mundo que não é o seu), terá que aceitar suas decisões e anseios quando não mais couber tê-lo sob seus cuidados.
A verdade é que não existe certo e errado em se tratando das boas intenções da educação familiar.
Existem, sim, pais narcisistas, traumatizados, encolhidos, frustrados, duvidosos de suas capacidades como gente.
Porque quando estancamos nossos filhos dentro de nossas expectativas, ou os invalidamos para a vida nua e crua, atiramo-os para o oposto de tudo que poderia ser menos “anormal”.
Nascemos com asas.
Talvez por elas não serem visíveis, esqueçamos a importância de cuidá-las, restringindo a liberdade de ser, de ir e vir, de querer, de imaginar e principalmente de pensar.
São as asas da alma e da mente - justamente as que possibilitam que o mundo não seja um vilarejo esquecido no passado, que as descobertas da ciência aconteçam, que os homens testem as incertezas e não se restrinjam a um universo diminuto.
Imagina se Einstein tivesse sua capacidade pensante restrita pelas crenças e medos de seus pais?????
Voar não significa necessariamente sair de seu núcleo “tribal” . Mas não ser tolhido o suficiente para ousar matutar, deduzir, exercitar a massa cinzenta.
Se nascemos com asas…nossos filhos nascem também!
Ops você não percebeu?
Sim, eles já nascem com asas, ou seja, com todo potencial para crescerem no sentido humano.
Como os ensinamos a usá-las é a variável do tema.
Tem pais que as cortam antes do primeiro choro de vida, outros as atrofiam por “inecessidade” justificada na “doença da posse “, e há os que reconhecem que as asas existem para fazer voar.
Caso esteja pensando que não podemos voar, lá vai a peteca na sua direção.
Nascemos com capacidade plena para alçar voos, para abrirmos nossas asas da liberdade de pensar, criar, recriar, estruturar novos parâmetros de comportamento, desestruturar o caótico e, principalmente para observarmos o mundo sob um ângulo amplo que nos permita uma visão menos pautada no egoísmo de nossas vontades.
Não criamos filhos para prateleiras de cristal.
Queiramos ou não, a humanidade segue reproduzindo justamente porque não geramos filhos para viverem encolhidos nas asas da galinha.
E se você está conseguindo mantê-lo agachado, enconchado sob seus cuidados, tenha certeza que mais cedo ou mais tarde, ele sofrerá por falta de habilidade - dele para com ele -, dele para com o mundo, uma espécie de rejeição por inabilidade em ser justamente o que precisamos ser para sobreviver: seres sociais.
E não é praga de velha bruxa, de homem do saco, nem de sogra recalcada, é a vida cobrando a vida de quem tem por obrigação viver, existir, ser e pertencer.
Se é facil?
Não! É muitíssimo árduo conviver com a sensação do ninho vazio, com o medo que nossas crias enfrentem “este mundo tão duro é cruel”!
“Oh vida, oh céus! Este monstro chamado mundo quer abduzir meu frágil filho para as profundezas do limbo”.
É isso mesmo senhores.
Mas pode e deve ser melhor.
Agora, se você não se vê com condições emocionais ou psicológicas para aceitar a vida como ela é , (os filhos não são apensos), fica “de grátis” as diquinhas abaixo.
Como seres potencialmente pensantes, responsáveis por nossas escolhas, podemos decidir sobre reproduzirmos ou não, bem simples assim!
Inclusive fazendo jus a capacidade de alienação tão presente no mundo, a própria sociedade encontrou um remédio que está super em voga para os solitários ex- futuros não papais! São os bonitinhos bebês “reborn”, que embora particularmente eu acredito ser mais uma enfermidade social, podem resolver conflitos de controle e posse típicos dos que ainda acreditam que filho é propriedade.
É para lá de óbvio que não queremos “jogar a intempérie” filhos, sobrinhos, netos etc
O que precisamos sim, é entender até onde vai nossa função familiar, até que ponto temos legitimidade para interferir na vida daqueles que orientamos, educamos e ensinamos sobre valores, condutas, certo e errado.
Necessitamos ter a sapiência de que entre uma ensenanza e outra, há a percepção deste terceiro, e sua vontade pessoal influenciando o porvir de suas deliberações.
É básico alimentá-los com informações que os capacitem para as indispensabilidades da convivência no coletivo, sem estrangular o sentimento de autonomia do raciocínio dedutivo.
“Eu confio em você porque dediquei meu melhor para que você possa seguir seu caminho”.
A crença de pertencimento não pode ser embasada no medo de não pertencer.
Ela deve ser fruto de um conjunto de aprendizados somados a um querer independente, permitindo um voo confiante.
Quando impedimos que nossos filhos se exercitem como pessoas, atrofiamos a sociedade, validamos o pão e circo, limitamos enormemente a solução para adversidades do planeta.
O próprio terráqueo humanoide se encarrega todos os dias em nutri-los com informações de desgraça e descrença, tentando com cada vez mais afinco, fazer sucumbir a capacidade pensante do ser humano (bem vindos ao mundo da Inteligência Artificial).
Sou a filha mais velha de três filhos.
Meus pais sempre fizeram questão de enfatizar que somos seres do mundo, o que confesso ter demorado para entender.
Nós três voamos. Alguns mais longe e outros mais perto.
Eu tive uma grande dificuldade em entender que existia como Daniele.
E coube a minha mãe, com muita dor, o empurrão “fatal”.
Hoje suponho quanto ela sofreu com a dor do desmame. E calada!
Eu não assimilava o porque precisava estar como um indivíduo apartado.
E dos 3 filhos dela, sou a que descobriu (obrigada) um mundo, até então não conhecido pelas gerações mais velhas de nossa família.
Há 14 anos vivo fora do Brasil e precisei criar um lugar novo para mim e meus filhos, porque tudo que eu tinha de referência estava inebriado num caminho muito diferente das vivências que tive.
Embora meus filhos sejam brasileiros, falem, escrevam, leiam em portugues, convivam diariamente com a brasilidade e seus costumes, eles precisaram adaptar-se às diferentes culturas dos países onde vivemos.
Seguramente o voo deles será (está sendo) bem diferente do meu porque estão expostos a realidades distintas.
Graças a coragem de minha mãe, em confiar no trabalho educacional que ela fez aliado ao estímulo de minhas habilidades (e consciência das inabilidades), eu consegui levar uma geração a um lugar dessemelhante ao meu reduto confortável e ampliar a visão sobre o mundo para eles.
É como construir uma história e ter a ciência de que por causa desta história, uma nova e ‘virgem” historia se inicia em um cantinho inabitado por nossos ancestrais.
Tenho três filhos também.
O mais velho foi criado por minha mãe e decidiu morar comigo quando já tinha dezessete anos.
Mas ele foi mesmo porque queria voar. Eu na minha inocência de mãe pensei que ele buscava “recuperar o tempo” que não estivemos juntos. E nossas brigas foram muitas até eu assimilar que ele ansiava viver a vida dele e não as expectativas que eu tinha para ela.
Coloquei na minha bolsa um desfibrilador portátil, me voltei aos céus e arremessei minha fé nas mãos de um anjo desocupado que estivesse disposto a acompanhá-lo, aprendi meditar, respirar como gato, cavalo e até passarinho, e o soltei.
Ele capotou várias vezes, se atirou em queda livre outras tantas, quebrou, ralou e por pouco não perdeu alguma asa.
Mas estava decidido a voar.
Confesso que passou longe de ser fácil entender o que ele pretendia e inúmeras nem ele mesmo sabia. Mas se entre o aconchego do lar e as variáveis que implicam os voos, ele optou por alcançar as alturas e arcar com os riscos disto, a mim só cabia acreditar na educação que ele havia recebido.
E não é que vem funcionando?
Hoje ele tem 28 anos e mora sozinho pelos países onde o enviam a trabalho.
Tenho muito orgulho dele, não apenas por seus êxitos mas principalmente por seus erros, pela insistência em buscar o que ele acredita ser o melhor, por sua aptidão em levantar-se dos tombos, em enxergar as falhas, em confiar em si mesmo.
E isto não se trata de “ter sucesso na vida”, porque “ter sucesso” vai muito além das conquistas materiais, de títulos e status. É sim, a capacidade de lidar com o real desnudo e fazer limonada quando não tem morango, deixar o vitimismo do lado de fora, assumir responsabilidade, exercitar o discernimento, chorar e enxugar as lágrimas para seguir, não ser refém do vitimismo, não usar desculpas para as falhas, não ceder ao negacionismo de que o mundo não tem solução.
Já meus outros dois filhos, começaram voar sem nem saber que tinham asas.
No primeiro ano que saímos do Brasil, estivemos vivendo em dois países completamente diferentes e eles precisaram se adaptar desde a língua até aos uniformes de escola, que oscilaram entre pijamas infantis `a camisas de botão e gola.
Mas isto eu conto em outra oportunidade.
E meu coração não se acostumou ainda com seus voos.
Não sei se coração de mãe consegue esta proeza.
O que sim, aprendi foi manusear “desfibriladores modernos” para que cada vez que um deles decide dar um passeio pelo mundo, eu não caia estagnada de terror pelos cantos de seus quartos enquanto choro de saudade.
Também parcelei no cartão de crédito um estetoscópio e vez ou outra checo se estou viva ou se morri com a última notícia sobre os filhos das mães do mundo.
Se você não tem filhos e almeja tê-los, faça terapia, procure um psiquiatra, certifique-se de sua potencial capacidade de criar gente.
Se você tem, certifique-se que não sejam “reborn” e deixe-os serem gente.
Daniele de Cassia Rotundo