Covid-19 longa é mais comum em mulheres
Covid-19 longa é mais comum em mulheres
Claire Sibonney
10 de julho de 2025
Quando a cientista Letícia Soares contraiu covid-19 em abril de 2020, estava na fase final de seu pós-doutorado em ecologia de doenças em uma universidade canadense. Em agosto, já se encontrava acamada.
O que começou com crises intensas de migrânea rapidamente se transformou em uma cascata de sintomas de covid-19 longa: desconforto gastrointestinal, insônia, dores articulares e musculares e fadiga excruciante. Como ocorreu com muitas mulheres com o quadro, Letícia também apresentou alterações menstruais repentinas que exacerbaram os demais sintomas.
“Isso me deixou perplexa”, disse a cientista, hoje com 40 anos. “Foi debilitante”.
Antes da infecção, ela mantinha um ciclo estável e previsível com o uso de um dispositivo intrauterino hormonal — cólicas leves, discreta distensão abdominal e sangramento consistente e controlado. Após a covid-19, sua menstruação desapareceu completamente. Alguns anos depois, o padrão se inverteu: o sangramento intenso e prolongado retornou, exacerbando os sintomas persistentes e desencadeando crises graves de mal-estar pós-esforço — uma das características da encefalomielite miálgica/síndrome da fadiga crônica (EM/SFC), quadro associado a doenças pós-virais.
Casos como o de Letícia estão levando cientistas a dedicar mais tempo à tentativa de compreender a disparidade biológica entre os sexos em doenças crônicas, como a covid-19 longa, inicialmente pouco explorada. Uma nova pesquisa da iniciativa RECOVER do National Institutes of Health, dos Estados Unidos, o maior estudo observacional sobre o tema até o momento, confirma o que muitos suspeitavam: mulheres têm risco significativamente maior de evoluir com covid-19 longa do que os homens. Embora os homens sejam mais propensos a doenças agudas graves e maior mortalidade, evidências crescentes sugerem que as mulheres são mais vulneráveis a sintomas crônicos.Publicado no periódico JAMA Network Open, o estudo analisou dados de mais de 12.200 participantes infectados pelo SARS-CoV-2 entre 2021 e 2024. Mesmo após o ajuste para fatores clínicos e demográficos, as mulheres apresentaram uma probabilidade de 31% a 44% maior de evoluir com covid-19 longa do que os homens. O risco foi especialmente pronunciado entre participantes não gestantes e fora da menopausa.
Este estudo é o primeiro a avaliar o risco em diferentes grupos de mulheres com base no sexo designado ao nascimento, revelando que idade, gestação e menopausa influenciam a probabilidade de evolução para covid-19 longa, afirmou o autor principal, Dr. Dimpy Shah, Ph.D., professor assistente de ciências da saúde populacional no The University of Texas Health Science Center, nos EUA. "É um achado bastante inovador".
Cinco anos após o início da pandemia, com centenas de milhões de pessoas afetadas por sintomas persistentes, essas novas evidências sobre disparidades sexuais biológicas destacam a complexidade da covid-19 longa e sua interação com os ciclos hormonais e as fases da vida.
O estudo constatou que, ao ajustar variáveis como idade, raça e comorbidades subjacentes, as mulheres apresentaram um risco 31% maior de covid-19 longa. Quando apenas idade e raça foram consideradas, o risco saltou para 44%, sugerindo que outros fatores, incluindo doenças autoimunes e quadros pós-virais, podem influenciar a relação entre sexo e a persistência dos sintomas.
A inciativa RECOVER também revelou padrões relevantes: gestantes de 18 a 39 anos apresentaram menor risco do que não gestantes, em comparação com homens da mesma faixa etária. Da mesma forma, mulheres de 40 a 54 anos na menopausa apresentaram menor risco em relação a mulheres que ainda não haviam entrado nessa fase.
Essas diferenças “podem ocorrer devido a alterações hormonais e variações nas respostas inflamatórias, que mudam com a idade”, explicou o Dr. Dimpy.
Ao identificar como o sexo biológico, a gestação e a menopausa afetam o risco de covid-19 longa, o estudo contribui para a compreensão de por que alguns indivíduos apresentam sintomas persistentes — e como as estratégias de tratamento podem ser personalizadas.
Embora o estudo RECOVER mais recente não tenha sido projetado para analisar níveis hormonais, a autora sênior, Dra. Nora G. Singer, médica e diretora de Reumatologia do MetroHealth Medical Center, nos EUA, destacou a necessidade de pesquisas futuras nessa área. "Se entendêssemos melhor os mecanismos biológicos que contribuem para a especificidade sexual, o questionamento seria: poderíamos estratificar melhor os pacientes com maior risco de covid-19 longa? Poderíamos direcionar intervenções específicas? Seria possível intervir de forma a reduzir a probabilidade de evolução para sintomas prolongados? E será que diferentes faixas etárias apresentam respostas imunológicas distintas?".
A emergente 'ciência menstrual' pode ser fundamental
Expandir essa pesquisa é crucial, pois tanto a covid-19 quanto outras doenças crônicas semelhantes permanecem amplamente negligenciadas em termos de financiamento e estudos clínicos. "Essas doenças são subfinanciadas e pouco estudadas em relação ao seu impacto", disse Beth Pollack, pesquisadora do Massachusetts Institute of Technology, nos EUA, que estuda doenças crônicas complexas.
Abordar lacunas de conhecimento, especialmente em torno das diferenças sexuais, pode melhorar significativamente nossa compreensão de doenças crônicas complexas, afirmou Beth, que foi coautora de uma revisão de literatura de 2023 sobre os impactos da covid-19 longa na saúde reprodutiva feminina.
Por exemplo, vários estudos e pesquisas anteriores com pacientes do sexo feminino com o quadro apontam para um aumento nos sintomas relacionados à menstruação, reforçando a hipótese de uma possível associação entre flutuações de hormônios sexuais e disfunção imunológica nesse contexto.
Hormônios sexuais e imunidade
As hipóteses atualmente mais aceitas sobre os mecanismos da covid-19 longa se concentram em quatro frentes: infecção viral persistente, reativação de vírus adormecidos (como os vírus do herpes comum), danos relacionados à inflamação em tecidos e órgãos, e autoimunidade (quando o sistema imunológico passa a atacar o próprio organismo).
Entre essas possibilidades, a autoimunidade tem fornecido algumas das pistas mais interessantes sobre as diferenças biológicas entre os sexos, disse a Dra. Akiko Iwasaki, Ph.D., imunologista da Yale University, nos EUA, que liderou inúmeros avanços em pesquisas sobre a covid-19 longa desde o início da pandemia. Ela destaca que as mulheres têm dois cromossomos X e, embora um deles esteja inativado, a inativação é incompleta.
Algumas células seguem expressando genes do cromossomo X teoricamente inativado, explicou a Dra. Akiko. Entre eles, estão genes imunológicos essenciais, que desencadeiam uma resposta mais robusta a infecções e vacinas, mas também aumentam a suscetibilidade a reações autoimunes. "Isso tem o custo de desencadear uma resposta imunológica excessiva", afirmou.
Os hormônios sexuais também exercem influência importante. A testosterona, mais elevada nos homens, é imunossupressora e pode reduzir as respostas imunológicas, o que ajuda a explicar a maior frequência de quadros agudos graves de covid-19, em comparação às mulheres, mas também uma menor tendência a sintomas prolongados.
O estrogênio, por outro lado, estimula a produção de anticorpos e a ativação de células T. Essa resposta mais intensa, embora benéfica no combate inicial à infecção, pode contribuir para a inflamação persistente observada na covid-19 longa, em que o sistema imunológico continua a reagir mesmo após a fase aguda.
Sintomas específicos para um sexo e comunidades marginalizadas
Dos mais de relatados por pessoas com covid-19 longa, vários são específicos de cada sexo, segundo a Dra. Akiko. Um estudo preliminar realizado por ela e pelo Dr. David Putrino, Ph.D., do Mount Sinai Health System, nos EUA, identificou a queda de cabelo como um dos sintomas mais prevalentes entre as mulheres e a disfunção sexual entre os homens.
Ao analisar essas disparidades, surge também a questão das taxas desproporcionalmente altas de covid-19 longa na comunidade trans. Um dos focos atuais do laboratório da Dra. Akiko é o papel da testosterona, motivado por relatos anedóticos de homens trans que observaram melhora significativa dos sintomas após início da terapia hormonal — o que levanta a hipótese de que intervenções hormonais possam ter potencial terapêutico .
No entanto, pacientes e ativistas afirmam que também é importante considerar fatores socioeconômicos. "Precisamos partir do nível populacional e estrutural para entender por que pessoas trans são repetidamente colocadas em risco", disse JD Davids, paciente-pesquisador trans com covid-19 longa e cofundador e codiretor da Strategies for High Impact e seu projeto Long COVID Justice.
Para onde tudo aponta
A possibilidade de diagnosticar a covid-19 longa com um simples exame de sangue pode mudar radicalmente as falsas percepções de alguns médicos de que não se trata de uma doença real, afirmou a Dra. Akiko. Segundo ela, esse avanço garantiria que o quadro fosse reconhecido e tratado com a seriedade necessária.
“Acredito que precisamos chegar a esse ponto com a covid-19 longa. Se for possível solicitar um exame de sangue e afirmar que alguém tem a doença com base em marcadores específicos, de repente ela se torna clinicamente explicável”, acrescentou. Esse tipo de diagnóstico é crucial para impulsionar a pesquisa, orientar tratamentos mais precisos — incluindo intervenções voltadas a alterações hormonais, imunológicas e inflamatórias específicas do sexo — e melhorar a qualidade de vida das pessoas acometidas.
Essa expectativa ecoa entre cientistas como Beth, que liderou o primeiro seminário virtual de pesquisa patrocinado pelos National Institutes of Health sobre aspectos pouco estudados na encefalomielite miálgica/síndrome da fadiga crônica e na covid-19 longa, e também entre pacientes como Letícia, que convivem com a imprevisibilidade desses quadros com resiliência.
“Esta doença nunca deixa de me surpreender com a forma como transforma meu corpo. Sinto que é uma adaptação constante”, disse Letícia. Agora morando em Salvador, ela teve a rotina drasticamente alterada, passando a maior parte do tempo em casa. Apesar das limitações, o trabalho remoto permite que siga atuando como colíder e pesquisadora da Colaboração Internacional de Pesquisa Liderada por Pacientes, voltada à defesa dos direitos das pessoas com deficiência.
Compreender as diferenças entre os sexos na covid-19 longa também pode transformar o atendimento a milhões de pessoas. Do ponto de vista da saúde pública, novas pesquisas podem aprimorar o diagnóstico em clínicas, subsidiar terapias direcionadas para grupos de alto risco e incentivar mulheres a levar seus sintomas a sério.
“Como eles correm um risco potencialmente maior de covid-19 longa, se não estiverem se sentindo bem, devem definitivamente conversar com seus médicos de atenção primária ou de clínica médica”, afirmou o Dr. Dimpy, ao comentar os dados mais recentes do estudo RECOVER. “É um chamado à ação”.
Este conteúdo foi traduzido do Medscape