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Um Natal do seu jeitinho!

20/12/2025 · Cultura / Daniele C. Rotundo

Um Natal do seu jeitinho!

 

Quando nos reunimos em festas “encerrando o ano”, com a “grande família”, com amigos, ou amigos dos amigos, tentamos preencher as demandas de uma lista com regras clássicas de “etiqueta natalina” ou “entrando ano novo”. Como, por exemplo, levar alguma comida para a casa do anfitrião (infeliz que limpara o sofá com docinho grudado), arrumar-se o suficiente para brilhar tanto como a árvore de natal, entregar uma lembrancinha para as crianças que esperam o papai Noel (enquanto nos endividamos na loja de brinquedos) e blablabla

Mesmo que inconsciente, carregamos a ideia de que no passado vivenciávamos "natais impecáveis”, e ainda que não sejam claros estas reminiscências na memória, desejamos representá-las com o glamour de grandes artistas da Broadway.

As crenças de que o Natal perfeito só depende do quanto você se esmera na elaboração de tudo em detalhes, ou de que o Ano Novo será próspero se comer lentilhas, pular ondinhas e cantarolar velhas canções, nos transforma em reféns de duendes e bonecos de neve.

À medida que os anos passam, é natural que a estrutura familiar se modifique. Alguns chegam, outros vão!

E isto é excessivamente angustiante para aqueles que sentem com mais precisão a passagem do tempo.

Justamente nesta época, a solidão e o saudosismo, (seja por escolha ou circunstâncias da vida), pesam mais que o saco do papai Noel lareira abaixo.

A melancolia, precedida por sentimentos como remorso, culpa, e vitimismo, desperta e assola o coração de considerada parcela da humanidade, transformando os outroras “momentos especiais”, em verdadeiros dramas cinematográficos.

Os sentimentos enfadonhos e depressivos escapam das prisões onde permanecem escondidos durante o ano inteiro e se fantasiam de adornos.

Então, bolas verdes, vermelhas, brancas ou azuis, bonecos de neve, biscoitos de gengibre, flores cor de vinho, sinos, presépios, anjinhos, duendes, renas e o tal padrasto Noel passam a representar lágrimas não choradas, despedidas amargas, e a própria consciência com os olhos arregalados, afirmando como fantasma, sobre a finitude da vida.

Da euforia das compras à exaustão emocional, de repente, estamos estatelados ao lado de uma árvore plastificada, lamentando copiosamente a vida medíocre do hoje.

Tudo piora com a constatação de que o nhoque não é mais da nona, o tempero do peru do tio-avô, nem a farofa com cebolas carameladas da prima solteira.

“Nada será como antes”!

De fato, nada é como ontem! Bem como não haverá tempo como o hoje!

Estamos tão acostumados nos ditames de como agir, quanto ganhar, como comer, beber, mexer a mão, o dedinho, sorrir, beber, tossir, enfeitar árvore de natal, aos conselhos de especialistas na vida alheia que nos falta atitude para sermos como queremos ser.

Independente de onde se escondem as amarras da condenação por nossa miserabilidade existencial, nestes contextos de alegria infinita e exigida, o seu fim de ano pode e deve representar o seu anseio, como efeito de mente e alma livre.

Com isto eu quero dizer: liberte-se, está tudo bem fazer um natal do seu jeitinho.

Não precisa ter árvore empetecada, luzinha colorida.

Você não será punido por não conversar com os parentes desagradáveis ou com o marido homofobico da vizinha, muito menos se não brincar com os pentelhos dos sobrinhos.

Aliás, nem precisa gostar dessa lambança toda.

Se é melhor para você, encara um rivotril e dorme.

Tá certo que também não vale arruinar a data aparecendo de cueca na sala de visita.

Um pouquinho da minha história.

Nos primeiros anos longe de nossa família no Brasil (moro fora há quase 13 anos), tentei imitar o que conhecia como Natal.

Mas não funcionou.

No meu núcleo familiar ninguém come peru, maionese ou arroz com passas. Roupa de festa não é confortável e esperar para abrir presente é sinônimo de dormir no sofá até meia noite, e acordar com vontade de envenenar papai Noel com biscoito de manteiga e leite morninho.

No México, nos aventuramos a aceitar alguns convites para compartilharmos “as alegrias” (ho ho ho) da “Noche Buena”.

Mas definitivamente não fazíamos parte da tribo!

O que não foi diferente quando mudamos para os Estados Unidos (há 8 anos).

Quando percebi estava desejando “feliz dia 26” com gargalhadas incontroláveis prestes a um surto psicótico.

Eu costumava passar horas pensando o que faríamos para comer, procurando cardápios de lugares brasileiros e atormentando todos com “o que vocês querem comer no natal?”

E a resposta era unânime:

-“Mãe, você faz um bolo de cenoura com calda de brigadeiro para o Natal”.

-“Como ?”

Após tantas bolas-fora, com muita persistência e uma abastada dose de resiliência, eu, Denis (meu marido), Hector e Helena (meus filhos) agarramos o controle da carruagem do papai Noel e guiamos as renas para um natal todo nosso. Sem passado, sem expectativas e definitivamente sem peru.

E assim, o Natal aqui tem cheirinho e gosto da nossa casa.

Uma mistura mágica de aroma de café com bolo de cenoura!

A gente se junta na sala, coloca colchões no chão, cada um com sua cobertinha e pijama natalinos. Ligamos a televisão e passamos estas datas, maratonando filmes, entre risadas, sussurros e guloseimas.

Tiramos fotos com acessórios típicos desta época, como tiara, cachecol, meia, gorros de papai noel, de duendes e tudo mais que eu achar nas lojinhas.

Na mesa tem coxinha, bolinha de queijo, empadinha, além de uma “ceia democrática”, panetone e muitos docinhos!

Nossa árvore não é abastada de presentes, mas tem o suficiente.

Porque, de verdade, de cacareco em cacareco desnecessário, a casa vai acumulando inutilidades, o bolso esvaziando, o provedor se endividando e o planeta subindo o nível de toxicidade com tanto plástico, papelzinho, sacos…etc

Eu e minha filha decidimos fazer “lembranças artesanais” este ano para dar as suas amigas e vizinhos.

A nossa comemoração começa no início de dezembro e durante o mês usamos calças, meias e camisetas natalinas.

Este ano eu consegui comprar calças de pijama para dia 24 é 25, antes de acabarem.

Mesmo assim, vez ou outra eu faço gol contra, como no ano que comprei um jogo de bingo e enchi um saco vermelho com bugigangas para servir de prêmio. Depois da segunda rodada, meus filhos só queriam que o papai noel me levasse de brinde para a terra do nunca. Fracasso total.

Sendo absolutamente sincera, eu ainda não consegui superar alguns detalhes sobre os “antigos natais”. Faço questão de assistir um pedacinho do show do lendário Robertão, porque brega ou não, ele representa minha infância com meus pais e as coreografias de dança que fazia com meus irmãos.

Sinto falta da “grande família”.

Também tenho muito orgulho que meu filho mais velho, tenha assimilado a importância destes dias e viaje de onde estiver para ficar com sua filhinha.

Mas entendo perfeitamente que não dá para estarmos juntos.

Não nestas datas.

 

Ah! Este ano encontrei um personagem fidedigno ao nosso Natal. Muito bem representado nos filmes, o senhor verdinho, carrancudo, avesso a tudo que lembre uma noite feliz de natal nos contos do velho barbudo (Grinch). Ele ganhou um lugar especial na entrada da casa.

Para você, um natal do seu jeitinho!

Daniele de Cassia Rotundo