Fundado em 1982 Notícias de Caieiras e Região Caieiras - SP · 05/06/2026

O peso de Janeiro

27/01/2026 · Cultura / Daniele C. Rotundo

É um parto.

O nascimento de um novo ano é o culme de uma temporada repleta de emoções de variadas índoles.

À medida que se aproxima o fim de um ano, a necessidade de encerrar ciclos torna-se veemente, praticamente um surto psicótico.

Muitas vezes, sem coragem de assumir as metas não alcançadas nos quase 365 dias anteriores, passamos da inércia para a corrida de São Silvestre em poucas horas ( as que justamente precedem o “adeus ano velho”).

Entre compras de Natal, de ameixa e lentilha, vamos encaixotando as derrotas, finalizando o  balanço, desempacotando enfeites e freneticamente enlouquecendo enquanto “beberiscamos” nas festinhas do trabalho, da escola, do prédio, da academia (ops, essa não porque não deu tempo de participar durante o ano) etc

E é , neste caos, que decidimos ler o livro do “grupo do livro” (que você só apareceu na hora do vinho o ano inteiro), perder uns quilos (que além de não desaparecerem, aumentaram), meditar, parar de fumar, plantar a pequena horta, organizar os armários, ser gentil! Ou seja,  sermos o que queríamos ser mas não fomos, fazer o que queremos (ou deveríamos) e não fizemos!

Mas a vida não espera.

Quase chegando lá, a lua mudou, a bolsa estourou e o Novo ano nasceu!

Que bom! Ano novo, vida nova e ninguém fala mais do que não aconteceu!

Com cara e coragem, estamos ali de branco, pulando ondinhas, comendo quitutes da “sorte” e pedindo aos céus uma nova oportunidade para sermos “nossa melhor versão”.

É neste palco que tudo começa na “nova vida” ! 

 

Há algum tempo o mês de Janeiro causa-me um estranho frisson gélido.

Singelamente decretei que este mal estar é fruto do chamado “inferno astral!”.

Chamamos assim, o mês que precede nosso aniversário, no qual provavelmente tudo será uma merda justificada. Nada será opcional. É o mês do auto flagelo, da profecia auto cumprida, praticamente um castigo do Universo por você (reles ser) ousar ter nascido!

Que importância nos damos, não é mesmo? Todas as estrelas nos viram as costas, os amigos nos abandonam, as folhas da orquídea caem, as unhas inflamam!

Talvez seja por isto que festa de ano novo para mim, tenha cara de cinismo.

Eu agarro o ano velhinho, com tanta vontade que, se não fosse certa sua morte iminente, eu o  sufocaria com meus braços ao redor do seu pescoço, enquanto gritaria em um ataque de pânico: “por favor, só mais um pouquinho”.

Não tem jeito, a covardia sempre dá uma passadinha para lembrar minha essência!

 

Neste mês de janeiro de 2026, eu tropecei e caí logo de entrada. 

Não literalmente. Mas numa espécie de conflito dos 51!

Este ano estarei oficialmente no mundo dos cinquentões! Completarei 50 anos + 1!

Há 5 anos atrás uma prima (meio coach), sugeriu que eu visualizasse como gostaria de estar em 5 anos. Uma vez “imaginada”, eu deveria engendrar nos meus dias a maneira de alcançar ser eu, em 5 anos.

Claro que me vi num corpo escultural, vestida “para matar” numa roupa de heroína, autora de best sellers.

Os cinco anos passaram e sou imensamente grata pela delicadeza dela em não questionar sobre o que fiz nos últimos 5 anos, muito menos se alcancei o resultado do  “projeto +5”.

Ela se formou na segunda faculdade, fez uma batelada de cursos e segue contente projetando.

Ja eu!!!!!!!!! 

Foi assim, nesta triste constatação, que findado o ano velho, na sova de janeiro, pirei!

“E agora, o que farei? Não tenho mais tempo. Mais de meio século (meio século+1). Velha demais para seguir ou jovem demais para parar?”

Sentada olhando para o nada, a ponto de convulsionar com minhas expectativas frustradas, meu marido nem esperou a primeira quinzena do fatídico mês de janeiro, e apareceu com um calendário enorme de 2026 para planejarmos as viagens de trabalho, das férias das crianças, e de comemoração dos nossos 25 anos de casados.

Neste momento sai de meu estado consternado e cuspi:

“Melhor nem começar o meu ano! Tenho 5 anos atrasados do projeto+5, mais o projeto dos 51+5, só para pisar com os dois pés em janeiro. ‘A parte dos artesanatos que não fiz, do projeto da remodelação da escada há 3 anos em andamento, ainda preciso ensinar Helena a dirigir, levar Nana para a limpeza dentária (programada há 1 ano atrás). Claro que tudo isto no mês de janeiro! Sem comentar que eu trabalho “no trabalho oficial”, na casa  ( de limpadora, lavadeira, organizadora, psicóloga, mãe de pet, mãe de adolescente…) e no quintal como jardineira.

 

Fiquei uma semana buscando a maneira de concentrar-me em como agendar todos os compromissos em 12 meses.

Uma crise de dor na coluna (só com data de chegada) aterrissou em cima de um problema crônico no quadril.   

“O que acontece com este mês? Não é possível que eu não possa começar o ano sem tanta perturbação mental. É encosto, mau olhado, mandinga? Será que é porque não pulei as 7 ondas? Ou porque não comi as romãs? Calma, calma. Só preciso pensar suficientemente claro e focar no vasto tempo pela frente! Isto é mais que inferno astral, é uma condenação ao umbral. Certamente o problema tem nome e sobrenome - e é o meu!”

 

Foi então, que um estrondo rompeu meus tímpanos e uma voz quase divina falou:

“Daniele, o problema é que você está carregando os 12 meses do ano! Não há coluna, quadril, nem mente que suportem este peso.”

Eu poderia assumir a autoria desta genialidade, mas meu marido lerá este texto, então melhor não estragar a relação com bobagens, ne?

É exatamente isto!

O peso de Janeiro!

Nem eu, nem você estamos preparados para o mês de janeiro.

Ele é quase um vilão da vida moderna. Com ele nascem aplicativos, novos modelos de cadernos, agendas, memorandos, com a finalidade de “programar seu ano, seu futuro peso, a projeção do rendimento da aposentadoria de seu filho e assim vai”.

É a  imperatividade de sermos perfeitos em nossos mundos imperfeitos.        

Somos esmagados pela urgência insana de sermos e estarmos no ontem, no hoje e no amanhã.

Por exemplo, as cobranças sem sentido, como a minha de estar encaixada nas expectativas de 5 anos atrás, quando minhas ideias, maturidade e percepção da vida eram totalmente diferentes da pessoa que sou hoje. É obvio, que a Daniele de agora não é a que imaginei 5 anos atras! 

Mas vivemos com tanta sede de controle que nos desnorteados com a imprevisibilidade da vida. 

Queremos suprir todas as lacunas do ano passado, dos anos passados, as perspectivas do próximo, dos próximos. E ainda, adicionar estatísticas e variáveis que possam alterar o resultado esperado.

Para quando?

É tudo para hoje, daqui a pouquinho.

Vamos recomeçar? Solta o peso, olha para o hoje.

O ano novo está aqui, de braços abertos, sorridente (com uma pontada de cinismo) : “bem-vindos, são 365 dias em vazio para você fazer como quiser”

Se  ainda está difícil, tenho uma brilhante solução: que tal o ano começar em fevereiro?

Viva os ultimos dias de Janeiro!

Daniele de Cassia Rotundo