MENOPAUSA
impactos no cérebro, na cognição e no sono
Apesar de frequentes, os efeitos cognitivos ligados ao climatério são um dos aspectos menos discutidos da fase final do ciclo reprodutivo feminino. Além dos sintomas orgânicos, o período está também associado a problemas psicológicos, bem como a alterações de memória, concentração e sono.
A chamada névoa mental — também conhecida pela expressão em inglês brain fog — é uma das principais queixas das pacientes. O termo é uma espécie de guarda-chuva que abrange uma série de alterações cognitivas.
As reclamações mais frequentes nesta fase incluem dificuldade para recordar palavras e números, esquecimento de compromissos e eventos, perda da linha de raciocínio, problemas de concentração e maior propensão à distração.
“O brain fog engloba isso tudo, essa dificuldade de concentração, perda de memória, desatenção. A pessoa quer se lembrar de uma palavra, do nome de alguém, e essa informação simplesmente não vem”, exemplifica a Dra. Lucia Paiva, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Ainda que as questões cognitivas associadas ao climatério não sejam novidade, o tema vem ganhando cada vez mais destaque, uma vez que atualmente a maior parte das mulheres permanece ativa econômica e socialmente de forma mais intensa do que nas gerações anteriores.
No Brasil, a mediana de idade para a menopausa é 48 anos, e sabe-se que os sintomas associados à transição para a menopausa podem ter início vários anos antes do último ciclo menstrual, ampliando significativamente a população potencialmente afetada. [1]
“As mulheres estão muito mais presentes no mercado de trabalho, são ativas por muito mais tempo, então essas alterações cognitivas são um ponto que elas notam muito mais. Hoje as mulheres de 50 anos estão voando: trabalham, se exercitam, têm uma vida sexual ativa. Então, é claro que elas sentem muito quando há qualquer mudança”, disse a Dra. Tayane Fighera, coordenadora do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
O papel do estrogênio
As alterações cognitivas associadas ao climatério são multifatoriais, mas o declínio no estrogênio, especialmente do estradiol (E2), tem um papel central.
O corpo feminino é rico em receptores de estrogênio, sobretudo no hipocampo e no córtex pré-frontal, regiões do cérebro que são cruciais para a memória episódica e o controle executivo.
De maneira geral, os estrogênios tendem a ter efeitos positivos no sistema nervoso central, melhorando funções protetoras e estimuladoras e aumentando os níveis de serotonina.
O começo das irregularidades hormonais da transição para a menopausa, com flutuações nos níveis de estrogênio, afeta diretamente esse equilíbrio, o que pode trazer reflexos cognitivos.
Revisões de estudos indicam que os domínios cognitivos mais afetados na etapa final do ciclo reprodutivo feminino são a aprendizagem verbal e a memória, com alguns efeitos mais modestos sobre a velocidade psicomotora e a memória de trabalho — que engloba a capacidade de manter e manipular informações na memória de curto prazo, por exemplo, reter um número de telefone por um curto intervalo de tempo.[2]
Diversos trabalhos indicam que essas consequências costumam ser transitórias para a maioria das mulheres.
Ainda assim, profissionais de saúde relatam que, muitas vezes, pacientes temem que essas alterações cognitivas possam ser, na realidade, manifestações precoces de algum tipo de demência, como a doença de Alzheimer. Diversas pesquisas e entidades de saúde destacam, contudo, que esse é um cenário bastante improvável.
Em um voltado para orientar profissionais de saúde em relação ao brain fog e às alterações cognitivas, a International Menopause Society é enfática quanto à raridade de casos de demência antes dos 64 anos.
“As mulheres devem ser tranquilizadas de que, a menos que tenham história familiar de doença de Alzheimer de início precoce, a demência na meia-idade é muito rara, afetando globalmente 293,1 a cada 100 mil mulheres”, ressalta o documento, publicado no periódico Climacteric.
A orientação reforça que, no brain fog típico, a mulher segue capaz de gerir suas atividades cotidianas, ainda que com mais esforço ou dependendo de estratégias compensatórias.
A demência, por sua vez, tem como forte fator de diferenciação o caráter progressivo do declínio cognitivo, interferindo na capacidade funcional e na realização de tarefas cotidianas.
Para atestar essas alterações, além do exame neurológico, testes de rastreio cognitivo, como o Miniexame do Estado Mental (MMSE) e o Montreal Cognitive Assessment (MoCA), bem como testes funcionais como o Functional Assessment Questionnaire (FAQ), podem ser incluídos nas avaliações.
“Na transição para a menopausa, não se espera que os sintomas cognitivos estejam associados a alterações no MMSE, no MoCA, no FAQ ou no exame neurológico. Nesses casos, as pacientes devem ser orientadas de que as queixas cognitivas provavelmente estão relacionadas ao climatério, com um declínio cognitivo sutil e transitório”, enfatiza uma revisão sobre os impactos cognitivos da menopausa publicada no periódico World Journal of Psychiatry.
Nos casos em que os testes de rastreio sinalizam comprometimento cognitivo nas mulheres na perimenopausa, “torna-se necessária uma avaliação neuropsiquiátrica e neuropsicológica abrangente para confirmar o diagnóstico de comprometimento cognitivo leve ou demência, além de investigação laboratorial, exames de neuroimagem e, eventualmente, outros testes para identificar causas subjacentes do declínio cognitivo”.
Distúrbios do humor
A transição para a menopausa também é uma “janela de vulnerabilidade” para sintomas ansiosos e depressivos, além de episódios de transtorno depressivo maior.
As evidências sugerem que a maioria das mulheres que vivenciam um episódio depressivo maior durante a perimenopausa já apresentou episódios prévios. E as manifestações “clássicas da menopausa”, como os sintomas vasomotores e os distúrbios do sono, muitas vezes complicam e se sobrepõem à apresentação clínica do transtorno depressivo. [3]
Mais uma vez, as flutuações nos níveis de estrogênio têm papel central nessas interações, uma vez que o hormônio é fundamental na regulação e na estabilização do humor. Além da serotonina, o estrogênio também atua sobre outros neurotransmissores, como a dopamina e o ácido gama-aminobutírico (GABA), ambos essenciais na regulação emocional e nos processos cognitivos.
Os estudos mostram, ainda, que a depressão associada à menopausa tem algumas particularidades.
“Embora compartilhe características com o transtorno depressivo maior, a depressão associada à transição para a menopausa tem um perfil sintomático distinto, caracterizado por labilidade do humor, irritabilidade, aumento da ansiedade, dificuldades cognitivas — como prejuízo da atenção e da memória —, fadiga, distúrbios do sono e queixas somáticas, em vez de apenas tristeza persistente”, destaca uma revisão publicada no periódico Brain Sciences.
Além das questões hormonais e de outros componentes fisiológicos, sintomas depressivos e de ansiedade podem ser agravados pelo estresse psicossocial ligado ao envelhecimento, como a percepção de mudanças na dinâmica familiar, na identidade pessoal e mesmo nos rumos profissionais.
Problemas na qualidade e no tempo de sono também podem contribuir ativamente para agravar esses sintomas. Ao longo da vida, mulheres já têm maior tendência do que os homens para apresentarem insônia e outros distúrbios do sono, mas, na transição para a fase final do ciclo reprodutivo feminino, as dificuldades para adormecer e manter o sono tendem a se intensificar.
Além do efeito direto das flutuações hormonais, o sono da mulher na perimenopausa é afetado também por outros fatores, incluindo as manifestações mais comuns desse período da vida feminina, como os fogachos e a sudorese noturna.
Médicos relatam que as queixas relacionadas às dificuldades para dormir são frequentes entre as pacientes e podem progredir nos estágios da menopausa. Estima-se que a prevalência de distúrbios do sono varie entre 16% e 42% na pré-menopausa, 39% e 47% na perimenopausa e 35% a 60% na menopausa. [4]
Tratamento
Especialistas enfatizam que as abordagens terapêuticas para as questões cognitivas associadas à menopausa devem ser avaliadas de maneira individualizada, mas que há intervenções farmacológicas e não farmacológicas disponíveis.
Algumas das principais diretrizes internacionais — como as da e da European Society of Endocrinology—, no entanto, não recomendam o uso da terapia hormonal para tratar especificamente os problemas cognitivos do climatério. Ainda assim, como há uma sobreposição frequente de sintomas, incluindo fogachos e sudorese noturna, que pioram a qualidade do sono e podem agravar as questões cognitivas, as pacientes muitas vezes podem se beneficiar diretamente do tratamento hormonal.
“Ainda não temos o respaldo científico para iniciar o tratamento hormonal exclusivamente pensando na parte cognitiva, mas já temos evidências de benefícios nesse sentido, sobretudo com início precoce. Mas, no momento, não existe ainda essa indicação”, explica a Dra. Tayane, que também é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Ela ressalta, contudo, que é bastante frequente que os sintomas vasomotores — que podem afetar até 70% das mulheres no climatério — contribuam ativamente para a piora dos quadros cognitivos, fazendo com que haja uma indicação efetiva da terapia hormonal.
“Uma mulher que está há seis meses sem dormir bem, com fogachos recorrentes, obviamente vai ter a vida prejudicada em vários aspectos. Isso atrapalha o raciocínio e a concentração, especialmente porque as mulheres normalmente fazem muitas coisas ao mesmo tempo. Melhorando esses sintomas, a vida da paciente melhora globalmente, e é claro que isso afeta também a parte cognitiva”, completou a Dra. Tayane.
No caso dos sintomas depressivos, as principais orientações são seguir o tratamento convencional para o quadro, incluindo o uso de antidepressivos e o recurso, conforme avaliação, à terapia cognitivo-comportamental. A investigação de doenças concomitantes e a avaliação da história de episódios depressivos são pontos que merecem atenção especial. [5]
Entre os medicamentos, as principais opções são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (ISRN).
A Dra. Lucia Paiva, da Unicamp, chama a atenção também para a importância de levar em consideração os efeitos colaterais ligados aos antidepressivos, que podem, em muitos casos, agravar problemas já sentidos pelas mulheres no climatério. “É o caso, por exemplo, do ganho de peso e da disfunção sexual, que já são queixas frequentes de muitas pacientes nessa fase”, alerta.
Especialistas indicam algumas intervenções não farmacológicas que podem beneficiar as mulheres no climatério, como a terapia cognitivo-comportamental, especialmente para o manejo de sintomas depressivos e de ansiedade.
Um número crescente de estudos também aponta efeitos positivos da atividade física na redução de sintomas depressivos ligados ao climatério. Uma revisão sistemática com metanálise em rede, publicada em 2025 no periódico BMC Public Health, indica que exercícios aeróbicos e programas multimodais (que combinam aeróbico e alongamento) contribuíram para aliviar sintomas depressivos nessas condições. [6]
Apesar dos efeitos benéficos, a adesão a longo prazo a essas medidas é um desafio, especialmente diante das mudanças fisiológicas associadas à menopausa, que dificultam a continuidade da prática de exercício físico.
Independentemente da abordagem terapêutica escolhida, os clínicos devem permanecer atentos às queixas e aos relatos das pacientes, que frequentemente chegam aos consultórios após longos períodos enfrentando os sintomas.
Num contexto em que as mulheres permanecem ativas profissional e socialmente por cada vez mais tempo, problemas como névoa mental e distúrbios do humor são uma ameaça real à qualidade de vida, à saúde e ao bem-estar.
As evidências hoje respaldam uma ampla variedade de intervenções, farmacológicas ou não, para oferecer alívio às pacientes nessa fase da vida. Ao oferecer os cuidados adequados, em conjunto com informação clara e acessível sobre riscos e benefícios, os profissionais de saúde têm a oportunidade de transformar a vivência da transição para a menopausa, favorecendo a qualidade de vida sustentada e a prevenção de complicações evitáveis.
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Giuliana Miranda é mestre em divulgação científica pela Unicamp. Especializada na área de saúde e ciência desde 2010, trabalhou por mais de uma década na Folha de S.Paulo. Já colaborou com diversas publicações do Brasil e do exterior, incluindo as revistas Superinteressante e Galileu e o jornal The Telegraph.
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Citar este artigo: Especial Menopausa: os impactos no cérebro, na cognição e no sono - Medscape - 23 de fevereiro de 2026.