FOGO NA CASA DA VIZINHA
Era o último dia e horas do ano, quando minha filha Helena desceu as escadas do segundo andar, e ao passar pela janela berrou:
“Acho que a casa ao lado está pegando fogo!”
“Não Helena, devem ser fogos de artifício”, eu respondi.
Denis, meu marido, que costuma ignorar nossos sinais de drama, estranhamente falou que era melhor verificarmos.
Chamou Hector (meu filho) que incomumente ouviu e respondeu de imediato.
Abrimos a porta, e constatamos que havia fogo na casa vizinha!
A queimação estava na parede lateral em direção a nossa casa. Não havia tempo de esperar nada. A estrutura das construções nos Estados Unidos é pura madeira, o que facilita que o incêndio se alastre rapidamente.
Com meia dúzia de palavras dividimos as tarefas.
Helena ligou para os bombeiros.
Hector e Denis abriram a mangueira do jardim e começaram a encharcar o pasto, enquanto se arriscavam a abafar as chamas que até então, pareciam “controláveis”.
Eu corri até a porta da vizinha e, como não havia campainha, esmurrei-a.
Ninguém respondeu, mas sabia que estavam em casa.
Me dirigi às janelas e gritei :”Fogo, fogo!”
Nada!
Nem um suspiro.
Minha cachorra latia frenética.
Telefonei para Dona Tereza (a vizinha) muitas vezes, sem sucesso também.
Foram momentos de desespero .
E, por um milagre, meu marido e meu filho apagaram o foco de incêndio.
Realmente não entendemos como conseguiram, porque o fogo já estava com alguns metros.
Ninguém saiu de dentro da casa!
Entramos na nossa moradia e fechamos a porta. Não havia mais nada para fazer.
Perplexos e entre risadas nervosas nos perguntávamos se aquilo tinha sido real.
Escutamos sirenes e pensamos que eram os bombeiros.
Mas não!
Sopapearam nossa porta.
Eu abri e um casal de policiais “tamanho extra grande” me perguntou o que estava acontecendo e se eu estava bem.
Eu disse que sim e percebi que a policial olhou para minha mão.
Foi aí que me dei conta que estava machucada pelos muros.
Antes que eu falasse algo mais, Denis apareceu e me disse que conversaria com eles.
“Recebemos denúncia de briga e gritos de mulher pedindo socorro dentro de sua casa, o senhor pode explicar o que está havendo!?”
“Eu acho que houve um engano, a casa ao lado estava pegando fogo”
A policial girou a cabeça procurando algum indício (ou fumaça). Mas não havia fogo, estava escuro e de onde ela estava não era possível avistar. Claramente descrente, ela pediu que ele esperasse onde estava e dirigiu-se à patrulha, enquanto o outro brutamontes garantia que ele não sairia dali.
Ela regressou.
“Senhor , não tem fogo aqui, mas tem uma mulher dentro da sua casa, machucada”.
“Deixem-me explicar o que aconteceu, por favor!?”, pediu Denis.
A medida que contava a história, ele os conduziu até a parede inflamada e ainda quente.
Foi neste cenário, que o filho da Dona Tereza apareceu atrás do carro que estava em frente a garagem da casa afogueada, e somente com o pescoço à mostra, espreitou a situação.
Meu marido falou em voz alta: “ei, sua casa estava pegando fogo, vocês não ouviram os gritos e as batidas?
Incrédulo e visivelmente atormentado pela presença do Denis, ele vagarosamente aproximou-se, permanecendo ao lado dos policiais, como quem teme ser agredido.
Quando entendeu que o estrago que havia ocorrido era em sua casa, levantou as mãos e exclamou tenso: “meu Deus”.
Os policiais olharam céticos para o rapaz e dispensaram meu marido:
“Senhor, desculpe a confusão e obrigado pela ajuda”.
Novamente adentramos em casa e apenas nos entreolhamos.
Eles estavam em casa, nos escutaram, mas ao invés de saírem, chamaram a polícia!
A polícia chegou acreditando que meu marido estava me agredindo. Isto mesmo?
Mas se eles ouviram meus gritos, por que não abriram, ainda que fosse uma fresta para eu entrar, e sair viva da suposta agressão que sofria?
No dia seguinte, a vizinha e seu esposo foram em casa com um pacote de chocolate e envergonhadissimos.
“Muito obrigado! Se vocês não tivessem agido, não saberíamos se estaríamos aqui hoje”.
E então, contaram a versão deles.
Quando escutaram baterem na porta, e logo nas janelas, assustaram-se.
As mulheres entraram dentro do closet com os dois bebês de colo e os homens trancaram-se no quarto e chamaram a polícia.
Dona Tereza encerrou a narrativa: “Eu falei para meu marido: acho que é a voz da vizinha”.
Tudo bem dona Tereza, feliz ano novo mesmo assim.
Detalhes: nenhum outro vizinho saiu para ajudar e os bombeiros erraram o endereço.
E salve a empatia !
O que aprendemos com isto?
“Para quem brinca com fogo, sobra loucura e falta vergonha” ou “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”?
Seja qual for sua opinião, para mim o que ficou evidente é que: o instinto de sobrevivência é singular, subjetivo e ensimesmado!
Eu e minha família, não pensamos em atuar ( e talvez exista até imprudência nisto), simplesmente agimos na tentativa de salvá-los o mais eficientemente possível, com os instrumentos que tínhamos.
Já a família de Dona Tereza pensou e decidiu: “deixar que outro alguém resolvesse”.
Encerramos o episódio, sem ressentimentos, claro.
Mas com vários questionamentos sobre o significado de amor ao próximo e as consequências de vivermos numa sociedade norteada por valores fincados no medo de ser gente.
Ah sim ? O que causou o fogo? Dona Tereza jogou no lixo o carvão quente do churrasco!
Daniele de Cassia Rotundo