O velho rasgado
O velho rasgado
Rente a guia da calçada, em frente a uma casa num bairro de classe média, um velho servidor aguardava a passagem para sua última morada.
Sem a mínima noção do que seriam os próximos tempos, seu corpo robusto parecia ter aceitado que o fim era iminente.
E, embora fosse notável que seus antepassados repousassem entre caros e finos costumes, o tecido de sua roupagem tinha aspecto ultrapassado e desgastado.
Seus pés descalços estavam aparentemente saudáveis, no entanto, a curvatura de sua coluna era algo preocupante.
Mas como a única certeza que existe é que nada sabemos definitivamente, a vida havia preparado algo mais humano que um desfecho reles para aquele senhorzinho.
Perdidos pela vizinhança, um casal observava atentamente os movimentos dos suburbanos.
“Por que alguém o deixaria a intempérie, se ainda pode ser útil?”
“Talvez justamente por ainda ter alguma serventia!”
“Então, vamos ficar com ele?”
“E se estiver infestado com baratas, formigas ou algum rato escondido?”
“Deixa de drama. Vamos chacoalhar e ver se tem indícios”.
“Esta bem. Nossa, eu nunca pensei que teria um assim, tão minha cara”.
Ele parou o carro, abriu o porta malas, e os dois caminharam tensos até o desalojado.
Cada um agarrou por um braço e o acomodaram com muito cuidado no bagageiro.
Ninguém apareceu nem na janela, nem na porta.
Eles só retomaram a respiração compassada quando, por fim, chegaram na garagem do prédio onde viviam.
Foi mais complicado do que pensaram, subir um lance de escadas com ele praticamente nos ombros, porque seu fornido corpo não passava pela escadaria.
Quando finalmente o colocaram dentro de casa, escutaram um rugido fraco e doloroso.
Acharam prudente examiná-lo minuciosamente e banhá-lo antes de o acomodarem.
Foi então que descobriram que um lado de seu corpo não tinha mobilidade absoluta.
“Com a ajuda de algumas almofadas, ele ficará confortável!”
“Acho que sim!”
Depois de limpo e remediado, o casal o apresentou para o resto da família.
“Não pulem em cima dele porque talvez não aguente muito peso, também não tirem a colcha porque ele tem alguns machucados que não conseguimos reparar com agulha e linha comum, deitem apenas onde há almofada. De resto, vamos aproveitá-lo”.
“Este é nosso novo sofá”.
Nos Estados Unidos é comum as pessoas descartarem itens que não querem mais nas calçadas, doarem em casas de caridade, venderem para lojas com fins lucrativos, em aplicativos ou realizarem “bazares no jardim”.
Até pouco tempo, esta era apenas uma maneira de se desfazer da quantidade absurda de “entulho” que os residentes de um país ávido por consumo, acumulam em suas casas, depósitos ou mesmo casas que compram para guardar coisas.
Na última década, no entanto, isto transformou-se num negócio lucrativo por aqui.
Além dos motivos óbvios que nos inclina a um olhar mais atento referente ao consumo, como os problemas ambientais de um modo geral, há um crescente mercado aproveitando o excesso de tudo (roupas, acessórios, eletrodomésticos, etc) para gerarem conteúdo de “pessoas legais” - aqueles que compram roupas usadas a um preço absurdo sob a égide de serem “vintages”. Nada contra.
Não sei se porque pelas terras do tio Sam tem tudo “de mais” ou porque a dinâmica do consumo não permite que nada envelheça, mas de fato é impressionante quanta coisa pode ser reaproveitada.
Embora acredito que precisamos pensar e repensar sobre a facilidade com que descartamos pelo simples “cansaço” das coisas, também entendo que muita gente não compartilha da ideia de reaproveitamento e prefira descartar para adquirir um objeto novo. Mas fazer com consciência social é condição inquebrantável.
Não coloque no lixo comum o que pode ser reciclado, doado, reaproveitado.
E isto vale para tudo.
Infelizmente ainda vivemos num mundo que carece de muita coisa.
Seu colchão velho não é lixo, muitos ainda dormem no chão.
Seu sapato com sola descolada, não é lixo, tem criança descalça.
Fica aqui só um lembrete singelo sobre o “nosso lixo”!
Daniele de Cassia Rotundo